Cerveja

O Miode, o Tejo, o Xangue: A bebida alcóolica chamada de “Hidromel” no Brasil

5 de março de 2016
IMG_1223

Possui diversas variações e estilos, que também podem ser adicionados de frutos, ervas, especiarias e raízes. A diferença do miode para outras bebidas fermentadas é a matéria prima base, que tem o mel de abelhas como a principal fonte de açúcares. A cerveja por exemplo é uma bebida fermentada de cereais maltados de cevada, trigo, centeio, entre outros. Já o vinho é uma bebida fermentada de uvas, mas também pode ser feito de qualquer outro fruto ou outras fontes de amido convertidas em açúcares fermentáveis. Curiosamente, no Brasil e em Portugual, o miode é chamado de “hidromel”. A razão disso é que os nossos patrícios lusitanos ao traduzirem a palavra do latim e do grego tomaram equivocadamente como referência o estado da bebida diluída antes da fermentação, que em grego arcaico denominava-se ?δωρμ?λι (Hudormeli) evoluindo para Hydromel- Termo que foi adotado nas cidades-estado da Grécia e depois no Império Romano, culturas  que influenciaram consideravalmente os países latinos e sua estrutura linguística. Nestas regiões o ‘Hydromel’ fermentado era chamado ν?κταρ (Nektar), Μ?θε (Methe), Μ?λικαθος (Melikathos) e Tem?tvm (Temetum). Algumas referências históricas e interpretações tardias sobre a bebida  indicam uma tradução equivocada da palavra Hydromel do latim para demais línguas latinas, tais como o italiano, o espanhol e mesmo o francês, cunhando um nome que não designava tal bebida no passado.

Daí sugiro o nome miode. O que leva a pergunta: “Mas Daniel, então de onde vem essa palavra “miode” ?” Na verdade, ela não existe na língua portuguesa, então a importei do seu termo original da raiz linguística indo-européia e “aportuguesei” o nome. Poderia ser também Tejo ou Xangue, pelas origens do leste africano e sino-asiáticas, mas como estamos no ocidente, faz mais sentido dar o nome à bebida ao seu termo e signifacado mais próximos de sua origem e de onde nosso idioma veio. A partir dos termos meduz (proto-germânico), miedus (balto-eslávico), medhu (indo-ariano), mjoed (germânico setentrional), methe (proto-grego) e toda sua prevalecência nas regiões produtores dessa bebida, fica bem mais coerente adotar um nome com essa raiz.

A origem dos fermentados de mel se perde na história e não é atribuída a uma civilização específica nem a uma determinada população isolada. Desde o Paleolítico Superior , em períodos diferentes da história, diversas populações ao redor do mundo coletaram o mel, armazenaram, diluiram e experimentaram a embriaguez proveniente dessas bebidas, utilizando tecnologias e utensílios das mais variadas formas. A razão disso é simples: O mel de abelhas, assim como os frutos, são as fontes de açúares disponíveis na natureza com maior facilidade de obtenção, sem que precise passar por plantios extensivos e processos enzimáticos e de sacarificação, pois já possui  grande concentração de frutose, glicose, maltose e sacarose, todos açúcares fermentáveis.

As regiões do mundo que se destacaram pela produção de fermentados primitivos de mel foram a África Oriental (Etiópia, Quênia, Tanzânia, Eritréia, Uganda e Sudão), o Oriente Médio (Egito, Iraque, Irã, Paquistão e região do Levante), a Ásia (China e Índia), a Meso-américa (Guatemala, El Salvador e sul do México),  a região Baltoeslávica (Polônia, Lituânia, Letônia, Rússia, Ucrânia e Bielo-rússia), os países germânicos (Alemanha, Áustria, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia) e os países celtas (Irlanda, Gales, parte do Reino Unido e Bretanha na França).

 

A difusão e a evolução dos fermentados de mel entre todas civilizações e povos como bebida inebriante foi tomando proporções maiores com as grandes migrações humanas após a última Era Glacial, com o fim do nomadismo, com guerras e disputas territoriais, com o início da agricultura e domesticação de animais, com a experimentação e com a adaptação de novas tecnologias de vasilhames e ferramentais. As regiões do mundo que melhor trabalharam essa experimentação foram os países bálticos, eslavos e germânicos, onde a bebida alcançou seu refinamento máximo e um padrão de qualidade que virou referência para tudo que é feito e reproduzido nos dias de hoje. Os fermentados de mel nessas regiões, que devido ao clima produzem mel somente uma vez ao ano, nem sempre estavam disponíveis para as classes de homens livres e escravos, mas alcançou as cortes dos reis e nobres como a bebida preferida de celebrações, rituais e cerimônias. Pela fonte de matéria prima escassa e sazonal, a bebida foi se tornando desejada e nobre, como um verdadeiro “Néctar dos Deuses”.

No Brasil, de poucos anos para cá, essa bebida ficou conhecida e foi difundida em virtude de filmes como Robin Hood, Beowulf, Harry Potter, entre outros, que apresentaram-na à platéia como uma bebida do cotidiano medieval apreciada em chifres. Esta também é mais uma incoerência sobre esse fermentado de mel. Os chifres não eram os recipientes principais e mais abundantes para a apreciação dessa bebida, pois se restringiam a guerreiros de estirpe elevada e aos nobres. Quando disponível para classes não abastadas, a bebida era apreciada em pequenas tigelas de madeira ou argila, chamadas de máza ou mazer e eram bem mais comuns que os chifres propagandiados erronemente pela mídia.
Por ser uma das bebidas mais nobres do mundo o miode se sustenta por si próprio e não precisa de muitas apresentações. Pela facilidade e pela otimização da produção de mel nos dias de hoje principalmente em países tropicais, é possível fazêla e obtê-la com mais frequência, o que nos garante felicidade e apreço de algo que acompanhou a história e a evolução do ser humano desde seus dias primordiais.
Um brinde!
Wassail! Skål ogh Odhinn med Oss!
Um antigo Mjødhall na Noruega da Era Viquingue (Séc. VIII a XI). O Salão do Miode, onde os guerrerios celebravam suas conquistas, vitórias e reuniões cerimoniais.

Miodes, fermentados de mel produzidos pela Smedgård desde 2007.

 

Texto por Daniel Gontijo Draghenvaard publicado no Bom de Copo


You Might Also Like

No Comments

Leave a Reply